FAN TOKENS NO FUTEBOL: UMA POSSÍVEL AMEAÇA AO FAIR-PLAY FINANCEIRO?


Ao anunciar a contratação de Lionel Messi, o Paris Saint-Germain impactou o mercado da bola e se consolidou como um dos grandes favoritos à inédita conquista da UEFA Champions League. Fora de campo, o clube francês também causou impacto ao divulgar que parte das “luvas” do craque argentino seria paga através dos chamados “$ PSG Fan Tokens”, a recém- lançada criptomoeda do clube.

Apesar do movimento disruptivo do PSG, a tokenização já é uma realidade para a maioria dos grandes clubes europeus e começa a ganhar força também no mercado brasileiro. Por aqui, alguns clubes apostam não apenas nos “Fan Tokens”, mas também em outras formas de tokenização de ativos, como aqueles vinculados ao mecanismo de solidariedade de atletas formados nas categorias de base do clube e aos chamados “Non-Fungible Tokens” (NFTs), que permitem aos clubes venderem desde um card digital colecionável de um atleta ou até mesmo a propriedade digital exclusiva sobre uma foto ou vídeo de um momento histórico do clube.

Os tokens surgem como uma promissora nova fonte de receitas para os clubes dado seu caráter inovador e as diversas possibilidades de exploração dentro desse mercado. Os “Fan Tokens”, por exemplo, visam o engajamento com os torcedores, conferindo aos proprietários desses tokens a possibilidade de participarem de certas decisões do dia-a-dia do clube, como por exemplo a escolha do design de uma terceira camisa, da braçadeira de capitão, do ônibus da equipe ou mesmo a música que tocará no estádio antes e depois da partida.

Por mais inofensivos que possam parecer, os “Fan Tokens” possuem um atrativo que vai muito além do engajamento entre clube e torcedor: a possibilidade de comercialização desses ativos em tempo real no mercado digital através da tecnologia blockchain, resultando em uma constante variação do seu preço, de forma semelhante a uma ação na bolsa de valores. Diante da iminente contratação de Lionel Messi, por exemplo, o “$ PSG Fan Tokens” valorizou cerca de 180% em poucos dias,. Dessa forma, o proprietário do “Fan Token” não precisa ser necessariamente um torcedor do clube, mas um investidor buscando lucro através da especulação deste ativo ou, até mesmo, a injeção de cifras ilimitadas no clube sem contrapartida aparente.

A este respeito, a ausência de regulação sobre tal atividade serve como um sinal de alerta para as entidades de administração do desporto, em especial no que tange ao Fair-Play Financeiro. Afinal, a emissão de grande quantidade de tokens visando inflar as receitas de um clube seria aceitável sob a ótica do Fair-Play Financeiro? E se todos esses tokens (ou grande parte) forem comprados por um mesmo investidor/fundo de investimento? E se esse investidor/fundo for de alguma forma ligada ao clube? Seria isso uma nova fonte recorrente de receitas ou uma forma de injeção de capital para irrigar artificialmente as contas do clube e burlar o Fair-Play Financeiro? Como será feito esse controle? A consolidação desses ativos como uma nova fonte de receitas dos clubes já é uma realidade e todos esses questionamentos merecem atenção e um amplo debate para que os regulamentos desportivos sejam devidamente respeitados.